As Bodas de Caná
Publicado em 26/10/2025 às 02:15 em Comentários.
• Escrito por Padre Anderson Rodrigo.
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Conforme o Evangelho de São João 2,1-11, as Bodas de Caná é o primeiro dos sinais realizados por Jesus. João, em seu Evangelho, trata os milagres como sinais. E qual a diferença?
Milagre é uma ação sobrenatural que demonstra o poder de Deus. O sinal é um milagre que aponta para uma verdade espiritual mais aprofundada, o que confirma a identidade ou a mensagem de quem o realiza.
Nesse sentido, o sinal das Bodas de Caná, narrado somente no Evangelho de São João, chama nossa atenção por diversos elementos presentes na narração: casamento, convite, vinho, mestre-sala, servos, talhas de pedra, água etc. Todos esses elementos têm a ver com a Aliança, tanto a Antiga quanto a Nova que o próprio Jesus inaugura.
A passagem deste Evangelho possui duas interpretações, sendo a primeira aquela que procura explicar o texto de forma literal, ficando somente no relato proposto. Jesus chega em uma festa de casamento, em determinada comunidade (Caná da Galileia) e ali realiza o primeiro sinal: transformou água em vinho a pedido de Nossa Senhora.
A outra interpretação procura ser mais aprofundada:
"Houve um casamento em Caná da Galileia"
No tempo de Jesus, os casamentos eram festas comunitárias, bastante alegres e esperadas, durando por volta de sete ou até mais dias (conforme fossem as condições dos que davam a festa). Para a festa vinham os parentes e os amigos de longe. Embora essa conotação social, as festas de casamento também carregavam o sentido religioso, recordando a Aliança entre Deus e seu povo. Nesse sentido, um novo casamento na comunidade simbolizava essa renovação da Aliança do povo com Deus.
"A mãe de Jesus estava lá"
Nossa Senhora aparece somente duas vezes em todo o Evangelho de São João. Sua primeira aparição é no início do Evangelho, neste trecho que mencionamos, e a segunda aparição se dá lá no final do Evangelho, aos pés da Cruz (Jo 19,25-27), quando o Senhor a entrega como mãe da Igreja, representada por João. A mãe já estava lá na festa e estará também aos pés da cruz.
"O vinho veio a faltar"
O vinho era o símbolo do amor e da alegria em um festa de casamento. Nesse sentido, um casamento sem vinho significava um casamento sem amor. Dava um sinal de penúria, de desleixo para com os convidados. Essas bodas simbolizam a Antiga Aliança: a falta de vinho significa que esta Aliança está imperfeita. Nessa mesma perspectiva encontram-se as seis talhas de pedra.
"Mulher, minha hora ainda não chegou"
É Maria, a mãe do Senhor, quem pede e toma a iniciativa. Jesus a chama de 'Mulher', o que torna-se estranho em um relacionamento entre mãe e filho. Este tipo de tratamento é feito somente pelo esposo, o que faz com que Nossa Senhora represente a Humanidade (esposa) em seu relacionamento com Jesus (Esposo) em uma Nova Aliança.
"Fazei tudo o que ele vos disser"
É preciso fazer tudo o que Jesus disse, o que diz e o que dirá. Remete ao livro do Êxodo e resgata a promessa da Aliança: "Faremos tudo o que o Senhor disser" (Ex 19,8; 24,7).
"Estavam ali seis talhas de pedra para a purificação dos judeus"
O número seis, na literatura bíblica, representa a imperfeição. Além disso, as talhas estão vazias, secas, sem função. As talhas secas são a Lei, que deveriam servir para a purificação do povo judeu. Outra coisa: as Leis eram escritas em talhas de pedras. Mas, neste trecho, as seis talhas vazias são a Lei que já não realizava mais nada, estava seca, esvaziada de sentido.
"Em cada uma delas cabiam cem litros"
Já parou para pensar o quanto são cem litros? Ao todo, foram 600 litros de vinho... Também é um grande exercício para se pensar. E, segundo o Evangelho, as talhas foram enchidas até a borda (até quase transbordar). E são enchidas por água, ou seja, por vida.
A água, dentro da teologia de São João, é o Espírito Santo, que é o que traz vida à sequidão da Lei árida e esvaziada; o Espírito Santo que vem preencher nosso vazio de sentido. E essa água se transforma em vinho, mas não um vinho qualquer: o melhor dos vinhos, que não embriaga de forma a gerar ressaca no dia seguinte, mas que embriaga da presença de Deus.
Esse vinho novo é o símbolo do amor de Deus para conosco, vinho que vem sempre em abundância. Portanto, o vinho representa a Nova Lei, que será o mandamento novo do Senhor: "amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 13,34).
E, no capítulo 6 deste mesmo Evangelho, Jesus dará também o pão em abundância: como sabemos, pão e vinho são os símbolos da Eucaristia, da Nova Aliança no Sangue do Cordeiro Imolado por nós.
"O mestre-sala não sabia"
Aparece a figura do mestre-sala, que nada sabia. Era o responsável por organizar a festa, e não sabia! Aqui, o mestre-sala representa os fariseus, os mestres da Lei, os escribas, que não percebem que falta amor, falta alegria em meio ao povo: falta o vinho!
O mestre-sala serve vinho bom no início e vinho ruim depois... E era assim que os mestres da Lei também estavam agindo com a Lei: deixavam-na azeda e, assim, azedavam a vida do povo: "[...] eram como ovelhas sem pastor!" (Mt 9,36; Mc 6,34).
"Os serventes sabiam"
Esses representam o povo, ao contrário do mestre-sala. O novo povo de Deus é aquele que acolhe a Palavra de Jesus e logo descobrem o vinho novo, que é bom e é oferecido em abundância.
"O noivo"
O mestre-sala vai, então, cobrar o noivo. Jesus, ao oferecer o vinho novo e em abundância, substitui o noivo, pois torna-se o esposo da Nova Aliança (cf. Jo 3,29), que oferece o vinho das núpcias messiânicas. Nesse sentido, a Nova Aliança é o novo vinho: o melhor vinho, que é preparado por Aquele que está junto à verdadeira sabedoria - que é quem "preparou o vinho" (Pr 9,2).
"Seus discípulos creram nele"
Essa é a finalidade dos sinais de Jesus: para que todos creiam nele. O verbo "crer" é extremamente importante dentro do Evangelho de São João e perpassa por todo o Evangelho.
Portanto, o início do Evangelho de João apresenta duas narrações que são surpreendentes ao ponto de vista religioso: a abundância dos 600 litros de vinho em uma festa de casamento, que se liga a uma cena posterior na qual Jesus se rebela contra o Templo (cf. Jo 2,13-22).
Isso significa que a Nova Aliança exige um novo templo, um novo lugar para o encontro com Deus. Os sinais das Bodas de Caná nos remetem ao último momento da vida de Jesus: a cruz, na qual ele nos amou até o fim e que também conta com a presença de sua mãe.
Na cruz, mais uma vez, o Senhor se doa por nós, não só com sua vida, mas na Eucaristia através de seu sangue e água vertidos para a humanidade. Na cruz, celebramos definitivamente o matrimônio entre Deus e a humanidade!