Comentário do Evangelho da Solenidade da Sagrada Família de Nazaré
Publicado em 27/12/2025 às 14:00 em Comentários.
• Escrito por Padre Doutor Antônio José de Almeida.
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A Semente na Terra - Mt 2,13-15.19-23
Depois do anúncio do nascimento de Jesus e da visita dos magos, Mateus narra o episódio da fuga para o Egito, na qual José exerce um papel importante. Mais do que a verdade histórica dos fatos narrados, Mateus leva Jesus a refazer a história do seu povo. Com isso, o Êxodo adquire um novo significado. Todos nós somos salvos da escravidão. A Sagrada Família sai do Egito, como o povo de Deus e entra na terra de Israel. Herodes está morto, mas um herdeiro continua exercendo o poder em Jerusalém. Então José, Maria e Jesus vão para a pequena cidade de Nazaré, onde Jesus vai crescer e preparar-se para a missão. Mesmo que os textos bíblicos não informem, Jesus vive e se encarna na comunidade. Não é um tempo perdido; não devemos ocultar a vida oculta de Jesus – como bem lembrou um jesuíta.
– Magos: Em Lucas, são os pastores que visitam Jesus. Em Mateus, são os magos que chegam do Oriente, demonstrando a universalidade da missão de Jesus e o reconhecimento por parte das nações estrangeiras.
– Anjo: O mesmo anjo que anunciou a José sobre o nascimento continua intervindo, sempre em sonho, informando-o o que está para acontecer.
– O menino e sua mãe: No capítulo 2 do Evangelho de Mateus, por nove vezes Jesus é chamado de “menino” e em cinco dessas citações é “o menino e sua mãe” (2,11.13.14.20.21), indicando o vínculo que existe entre Jesus e Maria. Deste modo, Mateus mostra a humanidade de Jesus, mas ao mesmo tempo mostra a humildade e a simplicidade de nosso Deus, que assume a nossa condição humana e se esvazia (Fl 2,6) do seu poder e da sua grandeza, assumindo a encarnação em todos os sentidos.
– Do Egito chamei meu filho: A frase é tirada do profeta Oséias (Os 11,1). Israel, o “filho” do texto profético era uma prefiguração do Messias. - Herodes quer matar o menino: Encarnando-se em nossa história, Jesus conhece o lado belo do que é ser humano, mas também o lado mais perverso. Já pequeno, sente a ameaça de morte. Herodes era um rei sanguinário, que punia com a morte quem ameaçasse seu poder. Havia mandato matar uma das suas mulheres, Mariana, dois dos seus filhos e tantas outras pessoas das quais desconfiou que pretendiam tirar-lhe o poder. Ao saber, através dos magos, que nasceu o Messias, sua primeira atitude é agir para eliminá-lo.
– Cumpriu-se: Mateus valoriza muito o Antigo Testamento. Basta ver como ele vê, nos fatos que narra, a realização do que aconteceu no passado. As expressões típicas de Mateus são: “foi dito pelo(s) profeta(s)” (1,22; 2,15.17.23; 3,3; 4,14; 8,17; 12,17; 13,35; 21,4; 24,15; 27,9); “como está escrito” (2,5; 4,4.7.10; 11,10; 21,13; 26,24.31); “ouviste o que foi dito aos antigos” (5,21.27.31.33.38.43); “para se cumprir as Escrituras” (26,54.56) etc. E quer mostrar como Jesus é o cumprimento de tudo o que foi prometido.
– Arquelau: Era filho de Herodes, o Grande. Sua mãe era Maltace. Arquelau era irmão de Herodes Antipas, que governou a Galileia (e que mandou matar João Batista e esteve presente no julgamento de Jesus: Lc 23,7-12) e irmão por parte do pai de Herodes Agripa I (que mandou prender Pedro e matar o Apóstolo Tiago, cf. At 12,1-5). Se temos a Sagrada Família, que luta pela vida, de outro lado temos a família dos Herodes, que produz a morte.
– Nazaré: A Sagrada Família (José, Maria e Jesus) retorna à cidade onde aconteceu o anúncio do anjo a Maria (Lc 1,26). Nazaré significa “broto novo”, pequena cidade no Norte, com aproximadamente 150 pessoas. É esta pequena cidade desconhecida que acolhe Jesus. Parece que não era bem-vista: “De Nazaré pode vir algo de bom?” – pergunta Natanael (Jo 1,46).
– O que foi dito pelos profetas: Esta frase é obscura, pois não se encontra em nenhum dos profetas que o Messias viria de Nazaré. Poderia constar nas tradições orais. Outra explicação melhor é notar que a expressão está no plural, e com isso estaria indicando que todo o movimento profético converge para o mistério escondido da encarnação.
– Nazareno: O termo poderia significar: consagrado ou santo, neste caso, remetendo ao voto de nazireato (Nm 6,1-21), porém, não há informações que Jesus tenha feito este voto. Outra hipótese melhor seria que o título deriva de Nazaré, então seria: broto novo, ramo ou ainda resto, com o valor teológico que tem no Antigo Testamento (Is 4,3; 6,13; 7,3; 28,5-6; 37,31-32; Mq 4,7; 5,2; Am 3,12; 5,15; 9,8-10; Sf 2,7.9; 3,12-13; Jr 3,14; 5,18; Ez 5,3; 9; 12,16; Br 2,13 etc.). Assim como Jesus, seus discípulos serão chamados nazarenos (At 24,5).
Fonte e crédito da imagem: O Pão Nosso de Cada Dia: Subsídio Litúrgico-Catequético Diário. Ano XX, nr. 240, p. 103-104.