Os Concílios Ecumênicos da Igreja
Publicado em 03/11/2025 às 16:35 em História da Igreja.
• Escrito por Padre Anderson Rodrigo.
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A história dos 21 Concílios Ecumênicos da Igreja Católica é um espelho da própria trajetória da civilização ocidental. Essas grandes assembleias de bispos não foram eventos isolados; foram marcos de resposta institucional a crises profundas que ameaçavam desintegrar a fé e a unidade eclesiástica. Desde o Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.), convocado pelo Imperador Constantino para pacificar um Império fragmentado pela controvérsia ariana, até o Concílio Vaticano II (1962-1965), que buscou orientar a Igreja para o diálogo em um mundo pós-guerra e globalizado, cada reunião é um registro de uma época. As decisões conciliares não apenas definiram dogmas e condenaram heresias, mas também estabeleceram regras para a eleição papal, enfrentaram o poder secular (como no confronto com os Imperadores e o Conciliarismo) e lançaram as bases para grandes reformas, como a Contrarreforma de Trento. Conhecer a cronologia e os temas desses Concílios é, portanto, essencial para compreender a evolução da doutrina, da disciplina e do papel da Igreja enquanto força histórica e agente fundamental na construção da sociedade ocidental.
O Concílio (ou Reunião) de Jerusalém
Não há um consenso entre os historiadores se o Concílio de Jerusalém possa também ser enquadrado como um concílio. Alguns defendem que foi uma "reunião", uma "assembleia" apostólica que se debruçou sobre um debate.
Com a pregação de São Paulo e São Barnabé entre os gentios (não-judeus), muitos novos convertidos estavam entrando na Igreja. No entanto, um grupo de cristãos judaizantes (vindos do farisaísmo) insistia que, para serem salvos, os gentios deveriam primeiro submeter-se à Lei Mosaica, especialmente a circuncisão.
Para resolver a disputa, Paulo, Barnabé e outros subiram a Jerusalém para consultar os Apóstolos e os anciãos.
- A Posição de Pedro: São Pedro argumentou que Deus havia dado o Espírito Santo tanto aos gentios quanto aos judeus, e que a salvação vinha pela graça de Jesus Cristo, não pela observância da Lei. Ele questionou por que impor um "jugo" (a circuncisão e a Lei) que nem mesmo os judeus conseguiam suportar (Atos 15,7-11).
- O Veredicto de Tiago: Tiago, o "irmão do Senhor" e líder da Igreja de Jerusalém, proferiu o veredicto final. Ele concordou que os gentios não deveriam ser perturbados pela imposição da Lei Mosaica completa.
Impuseram, contudo, quatro proibições morais e disciplinares, como concessões para facilitar a convivência com os cristãos vindos do judaísmo (Atos 15,28-29):
- Abster-se de alimentos sacrificados aos ídolos.
- Abster-se do sangue.
- Abster-se da carne de animais sufocados.
- Abster-se da impureza (imoralidade) sexual.
Os demais Concílios foram:
| Nome do Concílio | Período (Início - Encerramento) | Papa(s) | Principais Questões Abordadas | |
| 1º | Niceia I | 325 (20 de maio - 25 de julho) | Papa Silvestre I | Condenação do Arianismo (negação da divindade de Cristo). Formulação da maior parte do Credo Niceno. Fixação da data da Páscoa. |
| 2º | Constantinopla I | 381 (maio - julho) | Papa Dâmaso I | Condenação do Macedonianismo (negação da divindade do Espírito Santo). Adição ao Credo, formando o Credo Niceno-Constantinopolitano. |
| 3º | Éfeso | 431 (22 de junho - 17 de julho) | Papa Celestino I | Condenação do Nestorianismo (separação excessiva das naturezas de Cristo). Proclamação de Maria como Mãe de Deus (Theotokos). |
| 4º | Calcedônia | 451 (8 de outubro - 1 de novembro) | Papa Leão I, o Magno | Condenação do Monofisismo (uma só natureza em Cristo). Definição da união das duas naturezas (humana e divina) em Jesus Cristo sem confusão ou separação. |
| 5º | Constantinopla II | 553 (5 de maio - 2 de junho) | Papa Vigílio | Condenação dos Três Capítulos (escritos com suspeita de Nestorianismo), na tentativa de reconciliar os monofisistas. Reafirmação das decisões de Calcedônia. |
| 6º | Constantinopla III | 680 (7 de novembro) - 681 (16 de setembro) | Papa Santo Agatão e Papa São Leão II | Condenação do Monotelismo (uma só vontade em Cristo). Definição de que Cristo possui duas vontades, uma divina e uma humana, em harmonia. |
| 7º | Niceia II | 787 (24 de setembro - 23 de outubro) | Papa Adriano I | Condenação do Iconoclasmo (destruição das imagens). Definição da legitimidade da veneração das imagens (ícones). |
| 8º | Constantinopla IV | 869 (5 de outubro) - 870 (28 de fevereiro) | Papa Adriano II | Deposição e condenação do Patriarca Fócio (questões disciplinares e de autoridade). (Nota: Este Concílio é aceito apenas pelo Ocidente, pois o Oriente o considera ilegítimo). |
| 9º | Latrão I | 1123 (18 de março - 11 de abril) | Papa Calisto II | Ratificação da Concordata de Worms (fim da Querela das Investiduras). Questões de disciplina clerical (celibato, simonia). |
| 10º | Latrão II | 1139 (abril) | Papa Inocêncio II | Condenação do antipapa Anacleto II. Assuntos disciplinares e de reforma do clero. |
| 11º | Latrão III | 1179 (março) | Papa Alexandre III | Regulamentação da eleição papal (maioria de dois terços dos cardeais). Condenação de heresias (Albigenses, Valdenses). |
| 12º | Latrão IV | 1215 (11 - 30 de novembro) | Papa Inocêncio III | Maior Concílio Medieval. Definição da Transubstanciação. Obrigação da confissão e comunhão anuais. Preparação para a Quinta Cruzada. |
| 13º | Lyon I | 1245 (28 de junho - 17 de julho) | Papa Inocêncio IV | Deposição do Imperador Frederico II (questões políticas). Reforma moral do clero. Medidas contra os Sarracenos. |
| 14º | Lyon II | 1274 (7 de maio - 17 de julho) | Papa Gregório X | Tentativa de reunião com a Igreja Ortodoxa Grega (união que não perdurou). Regulamentação do Conclave para a eleição papal. |
| 15º | Vienne | 1311 (outubro) - 1312 (maio) | Papa Clemente V | Supressão da Ordem dos Templários. Condenação de heresias e reforma moral da Igreja. |
| 16º | Constança | 1414 (5 de novembro) - 1418 (22 de abril) | Papa Gregório XII e Papa Martinho V | Fim do Cisma do Ocidente (eleição de um único Papa). Condenação das doutrinas de John Wycliffe e Jan Hus. Discussão sobre a superioridade do Concílio sobre o Papa (Conciliarismo). |
| 17º | Basileia-Ferrara-Florença | 1431 (julho) - 1445 (abril) | Papa Eugênio IV | Outra tentativa de reunião com a Igreja Ortodoxa Grega e outras Igrejas Orientais (fracassada). Condenação do Conciliarismo. |
| 18º | Latrão V | 1512 (3 de maio) - 1517 (16 de março) | Papa Júlio II e Papa Leão X | Reforma do clero e da Cúria Romana. Condenação do Conciliarismo. Foi encerrado pouco antes do início da Reforma Protestante. |
| 19º | Trento | 1545 (13 de dezembro) - 1563 (4 de dezembro) | Papa Paulo III, Papa Júlio III e Papa Pio IV | Resposta à Reforma Protestante (Contrarreforma). Definição dogmática dos sacramentos, justificação, Missa e Tradição. Fundamento da Igreja Católica Moderna. |
| 20º | Vaticano I | 1869 (8 de dezembro) - 1870 (20 de outubro) | Papa Pio IX | Definição do dogma da Infalibilidade Papal e do primado do Papa. Definição da relação entre fé e razão (Dei Filius). |
| 21º | Vaticano II | 1962 (11 de outubro) - 1965 (8 de dezembro) | Papa João XXIII e Papa Paulo VI | Atualização (Aggiornamento) da Igreja para o mundo moderno. Renovação da liturgia. Ênfase na colegialidade episcopal, ecumenismo e diálogo inter-religioso. |
A trajetória dos 21 Concílios Ecumênicos ao longo de dois milênios demonstra a vitalidade e a continuidade ininterrupta do Magistério da Igreja. De Niceia I (325 d.C.) a Vaticano II (1962-1965), essas assembleias definiram dogmas, reformaram a disciplina, combateram erros e adaptaram a missão da Igreja às mudanças históricas e culturais do mundo. Cada Concílio, seja tratando de questões cristológicas fundamentais, combatendo o cisma papal, ou buscando a atualização pastoral (Aggiornamento), representa um marco de renovação e um esforço contínuo para preservar a integridade da fé e guiar o Povo de Deus. Eles são a prova histórica e teológica da autoridade docente da Igreja em ação.
Crédito da imagem: O Concílio de Trento (Portal A12).