Festa Litúrgica: 14/05
“Só posso admirar, adorar e amar a iniciativa da Divina Providência. Oh, quão importante é esta posição! Ser pobres instrumentos!”
Miguel nasceu entre as Montanhas dos Pireneus, em Ibarre, não muito distante da fronteira com a Espanha. Estudou pouco: havia outros quatro filhos na família, faltava dinheiro e ele foi enviado para trabalhar como pastor. Enquanto pastoreava o rebanho, entretinha os outros pastores com discursos eloquentes, pouco comuns para um jovem como ele, e logo lhe apelidaram de “o pequeno doutor”. Mas foi precisamente de suas origens humildes e de sua família, rica apenas em coragem, que Miguel tirou forças para trilhar o caminho da santidade.
A educação e o testemunho que recebemos de nossos pais quando crianças não são tudo, mas representam muito. Os pais de Miguel, por exemplo, viviam uma fé de tal forma autêntica, a ponto de leva-los a “fugir” para a Espanha — pouco distante do lado francês do País Basco — quer para se casarem em uma cerimônia religiosa quanto para mais tarde batizarem seus cinco filhos. Mas não só. Durante os anos do Terror da Revolução Francesa, sua avó, arriscando a própria vida, escondeu e ajudou um padre em sua casa. O sacerdote, mais tarde, retribuirá o favor dando as primeiras lições a Miguel, que demonstrou uma inteligência excepcional. No entanto, não conseguiu fazer a Primeira Comunhão antes de completar 14 anos, o que lhe é motivo de grande desgosto. Em 1819, finalmente conseguiu entrar para o seminário em Dax, sendo ordenado sacerdote em 1823 e, dois anos depois, foi enviado para lecionar filosofia no seminário de Bétharram. Assim, verdadeiramente se tornou doutor.
O período em que Miguel viveu foi particularmente difícil para a Igreja francesa. A Revolução destruiu tudo: igrejas, obras religiosas, muitas congregações deixaram de existir e não foram substituídas. Mesmo dentro da própria Igreja, havia os chamados padres "constitucionalistas", que juravam fidelidade à nova Constituição imposta pelo Estado, em contraste com os chamados padres "refratários", que permaneceram fiéis ao Papa. Nesse contexto turbulento, o jovem sacerdote Miguel, servindo como confessor das Filhas da Cruz, entra em contato com a vida religiosa e conquista a confidência de muitos bispos visitantes que lamentam a insubordinação de tantos sacerdotes. Ele então decide adotar a obediência total ao seu bispo como princípio fundamental de sua missão. A semente está lançada.
Deixamos Miguel em Betharram, no belo seminário às margens do rio Gave. Ali, ele tem uma existência atormentada pelo que vê ao seu redor: sacerdotes despreparados e desorientados que tateiam no escuro em vez de levar a luz da fé aos outros. Algo amadurecia dentro dele: e percebe isso em 1833, quando reuniu o primeiro grupo de sacerdotes que se voluntariariam para a missão de recristianizar os campos abandonados e de educar os jovens. Essas eram as duas tarefas mais urgentes. São muitas as adesões que recebe, e assim, dois anos mais tarde, nasce a nova família religiosa dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus — mais tarde conhecida como Sacerdotes de Bétharram - uma comunidade concebida a serviço da Igreja e do clero, com voluntários enviados para apoiar o clero em seminários, paróquias e faculdades, com o objetivo de reavivar a fé. Logo, um grupo de sacerdotes chegou a partir em missão para a Argentina, onde a Igreja tinha as mesmas necessidades. Mas começaram também os conflitos com o bispo, que queria manter a obra dentro da diocese, enquanto Miguel aspirava ao reconhecimento pontifício, o que só viria a ocorrer em 1875, após sua morte.
Mas também havia bispos que tinham Miguel em alta consideração, como o bispo de Tarbes, que em 1858 o envia duas vezes para encontrar Bernadette Soubirous, que tinha aparições regulares da Virgem Maria na vizinha Lourdes. Miguel tornou-se um dos grandes apoiadores da pequena vidente e passou a sentir também o conforto da proximidade de Nossa Senhora. Entretanto, ele já estava doente: em 1853, sofreu uma paralisia, da qual se recuperou posteriormente, mas a doença não lhe deu trégua e o confinou quase inteiramente ao leito por nove anos, até retornar à casa do Padre em 1863. Seus sacerdotes estavam então dispersos por toda a América do Sul. Pio XII o proclamou santo em 1947.
São Miguel Garicoits, rogai por nós!