João Batista é a voz. Jesus, a Palavra!
Publicado em 06/12/2025 às 19:00 em Reflexões.
• Escrito por Dom Erio Castellucci.
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Todos nós já vivemos, em alguma ocasião, a difícil experiência de João Batista: a de ser uma “voz que clama no deserto”. Os pais e os avós, por exemplo, dão conselhos que muitas vezes caem no vazio; a voz dos professores às vezes ressoa na indiferença; também educadores, catequistas e padres têm muitas vezes a impressão de pregar no deserto, como João Batista. Mas existem experiências ainda mais dramáticas de vozes no deserto: vozes que frequentemente não têm voz, que não conseguem se fazer ouvir; como a de tantas crianças no mundo que gritam porque não têm comida e medicamentos suficientes, ou porque não são acolhidas, amadas e respeitadas; a de pessoas que pedem justiça e não a obtêm; a voz daqueles que foram gravemente feridos nos seus afetos mais íntimos, e estão decepcionados e amargurados, e não conseguem se reeguer; a voz daqueles que gritam pela perda de entes queridos e, como resposta, encontram só um muro de silêncio. Muitas vozes gritam ainda hoje nos desertos do mundo.
João Batista, mesmo sabendo que a sua voz caía no deserto, não suavizou ammordì a sua mensagem, não procurou amenizá-la; ao contrário, começava os seus discursos com uma expressão nada cativante, como “raça de víboras”, que não é o melhor começo para obter consenso. O que dava a João Batista toda esta energia, mesmo sabendo que não encontraria muita acolhida... e, de fato, seria tão mal visto a ponto de ser decapitado?
João Batista com certeza não hauria esta energia da comida, dada a sua dieta rigorosa: gafanhotos e mel silvestre; hauria energia do fogo que ardia em seu peito, a paixão pela justiça e o desejo de ser um instrumento de Deus para o conversão do seu povo. Como todo profeta, este fogo interior o leva a pregar sem se deixar condicionar pela resposta: escutem-no ou não, convertam-se ou não, ele segue em frente. Um profeta - então como hoje – entrega-se à sua causa, e não se preocupa com a própria segurança; para João, esta causa é Cristo. Se tivesse pregado a si mesmo, teria cuidado da própria imagem, teria agido de modo a ser compreendido e acolhido; mas, dado que se dedicava a outro, só lhe interessava anunciar que estava para chegar um maior que ele. João naõ tem outra pretensão: ele é uma voz e, como diz Santo Agostinho, não pretende ser a Palavra (cf. Discursos 293C); sente-se apenas um instrumento da Palavra, um que que deve deixar espaço para a Palavra, Cristo. O objetivo da sua vida é preparar o caminho para alguém maior, do qual ele diz: “não sou digno de carregar suas sandálias”.
Tão maior do que ele, que Jesus irá desbancar o próprio João. O Batista, de fato, anunciava um Messias juiz, alguém que usaria o machado e queimaria a palha; alguém, em suma, que faria um julgamento claro e implacável. E Jesus se revelará desde o início juiz, sim, mas misericordioso; um Messias que prega o amor e não vingança, o perdão de Deus e não a sua ira. João Batista ficará tão perplexo que chegará a enviar-lhe, do cárcere onde estava preso, dois de seus discípulos para lhe fazer esta pergunta: “És tu o que deve vir ou devemos esperar por outro?” (Mt 11,3).
É esta, no fundo, a verdadeira reposta à voz que pregava no deserto: é a palavra da misericórdia e do perdão, é a palavra do amor de Deus. Os seres humanos não são capazes de responder às vozes que clamam por justiça e paz; as vozes que clamam no mundo e não e não encontram resposta, porque encontram corações humanos áridos e surdos, só podem encontrar abrigo no coração de Cristo, o único capaz de acolhê-las todas e dar-lhes esperança.
Quando nos deparamos com corações desertos que não ouvem as nossas vozes ou, vice-versa, quando os nossos corações são áridos e surdos em relação às vozes dos irmãos que gritam, é o coração do Senhor que recolhe todas as vozes: o seu coração não é um deserto, mas um oásis.
Certamente Cristo vem para julgar e não deixará que, no fim, vença a injustiça, resgatando quem a sofreu e premiando quem se opôs a ela. Mas este julgamento será diferente do que o Batista havia previsto e imaginado: não será com o machado e com o fogo, mas com a cruz. Jesus julgará não tendo na mão não o código penal, mas o código da misericórdia, porque é um juiz que sabe o que significa ser acusado, ser condenado sem culpa. Por isso, todas as vozes de quem sofre e clama no deserto encontram abrigo em sua Palavra, a única Palavra de vida eterna, a única que pode ressoar além do muro, de outra forma insuperável, da morte.
Fonte: O Pão Nosso de Cada Dia: Subsídio Litúrgico-Catequético Diário. Ano XX, nr. 12, p. 24-25.