Tarde Te Amei
Publicado em 28/08/2025 às 07:30 em Meditações.
• Escrito por Santo Agostinho.
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Das mais célebres citações que podemos apresentar de uma das maiores obras escritas por Santo Agostinho, conhecida como Confissões, está, sem sombra de dúvidas, a chamada "Tarde te amei!". Queremos, aqui, apresentá-la em forma de meditação.
Onde habitas, Senhor, na minha memória? Em que recanto habitas? Que esconderijo aí construíste? Que santuário edificaste? Deste-me a honra de habitar em minha memória, mas em que parte? É o que estou procurando. Ao recordar-me de ti, ultrapassarei as regiões da memória que também os animais possuem, porque aí, entre as imagens dos seres corpóreos, eu não te encontrava.
Passei às regiões onde depositei os sentimentos do espírito, e nem aí te encontrei. Entrei na sede da própria alma - pois o espírito também se recorda de si mesmo - e nem aí estavas. Como não és imagem corpórea, e tampouco sentimento de um ser vivente como alegria, desejo, temor, lembrança, esquecimento e outros semelhantes, assim também tu, não podes ser o próprio espírito, porque és o Senhor e Deus do espírito.
E enquanto todas essas coisas são mutáveis, tu permaneces imutável acima de todas elas. E te dignastes habitar na minha memória desde que te conheci. Mas, por que procurar em que parte habitas, como se na minha memória houvesse vários sentimentos? É certo que nela habitas, pois recordo-me de ti desde o dia em que te conheci. E é aí que te encontro quando me lembro de ti.
Todavia, onde é que te encontrei, para poder conhecer-te? Não estavas na minha memória antes de eu te conhecer. Onde, então, te encontrei, para conhecer-te, senão em ti mesmo, acima de mim? No entanto, aí não existe espaço. Quer nos distanciemos, quer nos aproximemos de ti, espaço não há. Tu, a Verdade, reinas em toda parte sobre todos aqueles que te consultam, e respondes ao mesmo tempo a todas as consultas diversas que te são apresentadas. Respondes com clareza, mas nem todos entendem claramente. Todos te consultam sobre o que querem, mas nem todos ouvem sempre o que querem.
Servo fiel é aquele que não espera ouvir de ti o que desejaria ouvir, mas antes deseja aquilo que ouve de ti.
Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.
(Confissões, livro X, 36-38).
Fonte: Agostinho, Santo. Confissões. Tradução de Maria Luiza Amarante. São Paulo, Paulus, 2002 (Clássicos de bolso).