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As Diferenças entre os Cânones da Bíblia

Publicado em 15/11/2025 às 00:05 em Teologia Bíblica.
• Escrito por Padre Anderson Rodrigo.
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As Diferenças entre os Cânones da Bíblia
Antes de falarmos dos livros do Pentateuco, precisamos conversar sobre o "Cânon", que, no contexto bíblico, é a lista oficial de livros reconhecidos por uma comunidade de fé como inspirados por Deus e, portanto, normativos para a doutrina, a liturgia e a vida religiosa.

Cânon Palestino (ou Cânon Hebraico)

Características gerais

O Cânon Palestino corresponde ao corpus de Escrituras reconhecido pelo judaísmo rabínico após o séc. I d.C., frequentemente identificado com o Tanakh (Torá, Nevi'im, Ketuvim). Trata-se de uma coleção consolidada no contexto da Palestina, com forte ênfase na língua hebraica e no uso litúrgico e comunitário entre os judeus do pós-exílio.

Traços distintivos

  • Forma tradicional de 24 livros (que equivalem, por agrupamento diferente, aos 39 livros das Bíblias protestantes).
  • Majoritariamente em hebraico, com partes em aramaico.
  • Critérios de aceitação: antiguidade, uso nas comunidades palestinas e consonância com a tradição litúrgica judaica.

Literatura presente

Inclui a Torá (do Livro do Gênesis ao Deuteronômio), os Profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os chamados Profetas Anteriores e Menores) e os Escritos (Salmos, Provérbios, Jó, Rute, Cântico, Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras–Neemias, Crônicas).

Livros ausentes

A tradição rabínica não inclui os livros que a Igreja Católica chama de deuterocanônicos (por exemplo: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc e I e II Macabeus, além das adições em Ester e Daniel).

Cânon Alexandrino

Características gerais

A designação “Alexandrino” remete ao centro helenístico de Alexandria (Egito), onde floresceu uma comunidade judaica de língua grega. A Septuaginta (LXX) - também chamada de Bíblia dos Setenta - é a tradução grega das Escrituras hebraicas produzida entre os sécs. III–I a.C. para uso dessa comunidade. A LXX passou a ser largamente utilizada pelas comunidades cristãs primitivas.

Traços distintivos

  • Baseada no ambiente cultural e linguístico grego, voltada para a diaspóra judaica.
  • Contém mais livros que o cânon palestino: inclui os deuterocanônicos.
  • É a versão mais frequentemente citada pelos autores do Novo Testamento e pelos Padres da Igreja.

Importância para a Igreja Católica

Para a Igreja, a Septuaginta representa uma tradição bíblica anterior ao fechamento definitivo do cânon hebraico e é parte integrante da herança litúrgica e teológica dos cristãos primitivos. Por isso, a Igreja a reconheceu como testemunho legítimo e inspirador da Escritura, posição confirmada de modo solene no Concílio de Trento (1546) frente às controvérsias da Reforma.

Principais diferenças entre os cânones

Origem e língua

Palestino: hebraico/aramaico, contexto palestino.
Alexandrino: grego, contexto helenista/diáspora.

Conteúdo

Palestino: corpus mais restrito, sem deuterocanônicos.
Alexandrino: inclui deuterocanônicos e adições.

Critérios de canonicidade

O cânon palestino enfatizou antiguidade, uso litúrgico local e autoridade tradicional. O cânon alexandrino, além desses fatores, consolidou textos usados amplamente pela diáspora e aceitos na prática litúrgica da Igreja nascente, o que favoreceu sua recepção pelo cristianismo primitivo.

O Cânon do Novo Testamento

Formação

O Novo Testamento formou-se a partir da tradição oral apostólica, cartas e evangelhos circulantes nas comunidades cristãs. Os critérios principais para o reconhecimento foram: autoria apostólica (ou conexão próxima aos apóstolos), ortodoxia doutrinal e uso litúrgico nas igrejas.

Estrutura

Hoje o Novo Testamento é composto por 27 livros: quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas, João), Atos dos Apóstolos, as Cartas Paulinas, as Cartas Católicas (ou gerais) e o Apocalipse de João. A inclusão de Hebreus tem tradição complexa, mas a Igreja Católica o incluiu no cânon final.

Processo de reconhecimento

O reconhecimento canônico ocorreu progressivamente: testemunhos como o Cânon Muratoriano (séc. II), a citação e uso pelos Padres da Igreja, e decisões conciliares locais culminaram em listas e confirmações nos concílios de Hipona (393) e Cartago (397), e na recepção universal da Igreja. A formulação magisterial foi confirmada em decisões posteriores, inclusive no Concílio de Trento (1546).

Posição católica sobre a formação do cânon

Na visão católica, a Escritura é inseparável da Tradição: o discernimento dos livros inspirados não foi um processo meramente acadêmico, mas um ato da Igreja guiada pelo Espírito Santo, que garantiu a unidade e a autenticidade da Revelação.

Observações teológicas e pastorais

Algumas observações úteis:

  • A Septuaginta é a tradução que mais influenciou o Novo Testamento, uma vez que muitos autores neotestamentários citam versões e leituras concordantes com a LXX;
  • Os livros deuterocanônicos oferecem ensino valioso sobre oração intercessória, sabedoria e a história do povo em tempos tardios, e por isso foram preservados na liturgia e na patrística;
  • Entender a diferença entre os cânones ajuda a compreender debates teológicos posteriores (Reforma, Concílio de Trento) e a diversidade das tradições judaica e cristã.

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